CROSSING SECTIONS

O deserto não convida. Ele simplesmente existe e você decide se entra.

Entrei algumas vezes com o olhar de quem cresceu cercada pelo verde abundante do Brasil, pela memória da Amazônia e pela ideia de uma natureza exuberante, quase excessiva. Talvez por isso essa monocromia contrastada me fascine tanto. O deserto hipnotiza. Às vezes, alucina.

Cruzei seções de areia, de pedra, de silêncio. De carro, muitas vezes sem um destino claro, seguindo o que a estrada propunha e o que a luz prometia. O calor que sobe do asfalto cortando o vazio. A caminhada difícil e aparentemente interminável entre dunas. O vento quente que antecede a tempestade de areia. O frio que surge sem aviso quando o sol desaparece e o céu se transforma em um mar de estrelas.

No deserto, a luz não ilumina, ela esculpe.

Cria volumes onde aparentemente não há nada. Afasta horizontes, dissolve distâncias, transforma milhares de grãos de areia em uma única superfície vibrante. O contraste é quase violento: sombra e claridade sem meio-termo. Tons monocromáticos que se complementam. O quente e o frio coexistindo sem transição.

Diante dessa escala, sinto-me pequena.

Mas é justamente nessa pequenez que encontro uma forma de presença. O deserto reduz as distrações, elimina excessos e confronta o olhar com aquilo que permanece. Tempo, espaço, matéria e luz.

Crossing Sections nasce dessas travessias vividas. Travessias reais, registradas com a câmera e agora em papel e nas lembranças. Seções cruzadas de luz, de tempo, de paisagem e de mim mesma.

Esta é uma série em andamento.

O deserto ainda chama e eu voltarei a cruzá-lo.